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Anjinho

André Jr, transformou-se em anjinho antes do tempo…

André Jr.

Presunção a minha achar que sabia qual era o tempo deste maravilho menino que veio do interior do Pará e que conheci e me apeguei em Goiânia, no Hospital Araújo Jorge.

Não li os sinais, eu me comprometi em acompanhá-lo até sua partida, mas não percebí o que deveria perceber. Ainda guardo em meu celular a sequência de 4 ligações que André Jr. fez 1 dia antes de partir, eu não retornei seu chamado, achei que tinha “mais” tempo.

rec_cuiaba_272.jpgAndré Jr.André Jr.

Agora, só me resta ir até o Pará, em sua cidade natal, Pau Darco, para ver Sônia, sua mãe, e de alguma forma que ainda não descobri, me fazer presente. Vou levar fotografias de André, tenho certeza que ela vai gostar.

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Acabamos a viagem em Fortaleza, Alicia foi ótima companheira de estrada, topa todos desafios. Não paramos para descansar: fui ao Hospital de Fortaleza onde conheci a paciente Marineide e vários profissionais muito especiais.

Estava ansioso para saber porque Marineide havia abandonado seu tratamento. Me sinto de certa forma responsável por algumas pessoas que vou cruzando no caminho. Marineide é uma delas, vou acompanha-la até o fim, e sei que ela pode ter um fim maravilhoso. Fiquei muito triste ao saber que ela não esta no hospital fazendo sua quimioterapia, para num futuro próximo fazer um transplante de medula, e assim seguir sua vida normalmente.

Consegui falar com a Dra. Georgina. Ela me disse que Marineide brigou com a mãe, saiu de casa e agora casou com um moço de Choró, onde mora. Será que ela abandonou seu tratamento só pra viver mais um ano, mas ao menos viver longe do hospital? Ou será que ela não sabe ao certo o que está acontecendo? Tantas questões me passam na cabeça, mas tenho que pensar rápido, pois cada dia fora do tratamento diminui muito as chances de vida da moça. Mais um mês distante do hospital e sua escolha pode não ter volta.

Marineide já chegou longe, conseguiu um acesso ao tratamento que poucos conseguiram. Mas é apenas uma adolescente, quer namorar, fazer o que todos nós fizemos. Nesta idade, eu não tinha noção de vida e morte, nem mesmo do tempo… Todos nós temos um tempo aqui na terra.

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Duas Agentes de Saúde de Flecheiras, pequena vila de pescadores, um lugar turístico. São agentes de saúde muito especiais, que trabalham durante a semana no posto de saúde e fazem bicos de final de semana: arrumadeira nas casas de turistas, cozinheira…

Elas vão além porque não se conformam com a situação precária da saúde em sua vila. Sempre tentam dar um jeito, se necessário, comprando briga com o prefeito que não encaminha os pacientes, conseguindo dinheiro com os moradores para pagar uma passagem para uma pessoa doente ou para comprar remédios, ou visitando e acompanhando de perto uma família.
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Compraram com muito esforço um aparelho de medir pressão, que agora já não funciona mais, depois de tanto uso. Até mesmo o marido de Edinir tentou ajudar, trocando o reloginho do aparelho já bem usado por um parecido, que encontrou em um compresso de ar estragado no ferro velho.

Apesar de muitos momentos difíceis, o que me move e inspira neste trabalho são pessoas tão iluminadas como estas.

Mais uma vez não resisti. Chegando em São Paulo, comprei dois aparelhos de medir pressão. Não eram tão caros assim, enviei pelo correio.

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Muitos cemitérios passaram por nós na estrada. A primeira impressão foi uma imagem forte, marcada pelo céu carregado de nuvens, frente aos lugares áridos. Mas, ao me aproximar, percebi que muitos ali morreram ainda jovem, e que os lugares eram muito abandonados. Acredito que muitos morrem no Brasil sem mesmo saber o que tinham, sem acesso ao menos a um diagnóstico.

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Mesmo com saúde debilitada, Raimundo caminha um bom trecho de estrada até o trevo onde pegava carona com uma mescla de Ambulância e Micro-ônibus da prefeitura… Fui atrás desta imagem. Nossa viagem até Fortaleza cruzava o mesmo trevo, o problema foi o horário: saí as 3:00 da manhã para chegar no trevo as 5:30 quando ele se prepara e toma seu café, antes da longa jornada.

Sr. Raimundo parou de trabalhar na roça, seu problema renal crônico não lhe dava mais força para tratar a terra.  A opção foi montar uma vendinha na própria sala de casa.

Seus remédios tem um custo muito alto, e não estão disponíveis na Secretaria de Saúde. Raimundo compra os remédios e um cafezinho em suas duas viagens semanais. Nos piores dias, fica sem comer até voltar para casa. 15 horas sem comer. Acrescente a isto mais cinco horas de hemodiálise. Ele diz que muitos dias passa muito mal, na verdade ele passa muita é fome.
Esposa de Raimundo
Comprei pães para tomarmos café juntos, e conhecer assim um pouco mais de sua história. A imagem que eu queria, não consegui: inocentemente, Raimundo avisou a Secretaria de Saúde que eu estaria lá, e neste dia o transporte veio até a porta de sua casa. Por fim, ele me pediu um dinheiro para almoçar, na clinica. Naquele dia ele almoçou bem.

As vezes, o máximo que posso fazer por alguém é escutar sua história, levar sua imagem, e tornar um curto período de tempo mais ameno.

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Um dos caminhos oferecia uma rápida viagem pelas BRs oficiais. Com a boa condição das estradas. O outro trazia estradas de areia: Uma viagem de 1.200 km que levaria 3 dias ao invés de 1 dia e meio. Este segundo era o caminho para aqueles que querem seguir pela costa cearense, margeando o mar.

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Escolhi o mais longo, senti que o imprevisto do interior era essencial nesta viagem: preciso estar atento para que as boas histórias surjam.

Foram horas de tensão e um quase arrependimento – O que estou fazendo aqui? Me perguntava as vezes. Em muitas etapas a estrada era coberta pela areia, e o carro ameaçava não passar. Parei, esvaziei os pneus da frente e perguntei diversas vezes para os poucos moradores da região se carros como aquele costumavam passar com sucesso por ali. No fim tudo deu certo.

Maria vai longe

Apelidei a máquina de hemodiálise de lavadeira. Gosto de chegar nos lugares e inventar nomes, primeiro pela minha dificuldade de decorar termos ligados à medicina, sempre muito complicados. Com o tempo, também percebi que as pessoas se divertem com os nomes que arrumo, acho que isto torna as coisas mais leves…

Maria de madrugada esperando o transporte para a capital

Maria, jovem e linda, não possui o tratamento de hemodiálise em sua cidade – Barreirinha, interior do Maranhão – e teve que abandonar sua filha para, sozinha, morar na capital – São Luis. Duas vezes por semana fica “plugada” na lavadeira por cinco horas lavando seu sangue, na verdade, filtrando o sangue. Este trabalho normalmente é realizado pelos rins, mas os rins dela deixaram de funcionar há algum tempo, e um transplante aqui no Maranhão… Só Deus sabe… Após alguns meses, Maria conheceu na própria clinica onde faz seu tratamento outro paciente que mora em Barreirinha. Conversando, soube que havia um transporte da própria Secretaria de Saúde, que fazia o translado de pacientes renais. Rapidinho, ela voltou à sua cidade. Inicialmente muitos pacientes de Barreirinha eram transportados em uma ambulância, mas viajavam bem acomodados. Muitos utilizavam este serviço, mal alojados no baú de uma ambulância sem janelas. Agora o transporte melhorou, eles são transportados em um carro da Secretaria.

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